Era uma tórrida manhã de verão no Rio, há pouco mais de 15 anos.
Tinha que sair fardado, e assim entrei num táxi na Praça Mauá. O motorista foi amistoso: "Pra onde, 'Ashpíra'?" (varreu-me com o olhar e se corrigiu) "Né 'Asiprante' que fala não, né?" "É 'Guarda-Marinha'", falei sorrindo. "Verdade",ele riu, "vocês são todos 'mordomos'!" Mais uma gíria nova. Respondi, "Para São Cristóvão, pro Museu".
Ele engatou de pronto e partimos. Tirei o boné mesmo sem poder. Tava calor e ele percebeu meu incômodo. "Olha só, o ar condicionado pifou. Se o senhor quiser pode descer, vai desculpando aê." "Fica tranquilo. Demora até lá?" "Não. A Presidente Vargas tá boa. Nem meia hora."
Se ele fosse mineiro e dissesse que seria "rapidín" eu desceria do táxi. Sendo ele um carioquíssimo, continuei. Fechei os olhos para sentir o vento, quente também. O táxi parou num semáforo, perto da Candelária. Ele me olhou pelo retrovisor: "Posso te pagar um sorvete, Tenente? Pra tu não ficar bravo com o ar condicionado." Antes que eu dissesse qualquer coisa ele me estendeu um picolé. "Só tinha de leite condensado. Deve ser horroroso!" E rimos.
Era horroroso mesmo, mas era gelado. Ele franziu o cenho antes de voltar a falar, com a voz cheia de picolé: "Aê... meu pai foi sargento da Marinha, sabia?" Levantei as sombrancelhas como se já soubesse de toda a vida daquele jovem, menos disso. Ele continuou, "Mas tá aposentado. Cara, ele era sargento músico dos Fuzileiros. Maior talento, o Velho. Aí botaram ele pra fazer uma instrução de tiro. Sei lá que zerda deu que explodiu um treco que perfurou o tímpano dele. Aí ele não serviu mais pra banda. Até tentou mas não teve jeito. Aposentaram o Velho e aí que ele não prestou pra nada mesmo. Ficou na cachaça com mulher da vida..."
Ele fez uma pausa. Continuou.
"Aí minha mãe pôs ele pra fora. Tu não queira saber como é ter pena do pai quando tu ainda é moleque. Dá um nó que não some." Daí ele se calou. Deu para ver que estava com os olhos arregalados, e fazia um sinal de negativo com a cabeça de vez em quando. Já na Quinta da Boa Vista ele anunciou: "Chegamos, Tenente!" Pus a mão no bolso e ele disse com os olhos fechados, "Olha só, não leva a mal não, mas eu não vou te cobrar nada não. Tá tudo maneiro. Pode ir, bom passeio!" Eu entendi que ele queria esquecer aquela corrida.
Já na entrada do Museu Nacional, reagi ao primeiro pasmo me dizendo que, se tivesse filhos, os levaria ali um dia. Pois é…
Hoje eu me lembrei do taxista, do seu pai, de ambos consumidos pela amargura, enquanto o Museu era consumido pelo fogo. Era um Museu de História Natural. Guardava a Natureza, a nossa Natureza, das poucas coisas que nos davam orgulho de aqui ter nascido. O desleixo com nosso bem mais fortemente simbólico fez lembrar uma frase de um colega daqueles tempos, dita com a verve típica dos cariocas, ao me responder quando me ouviu dizer o quanto aquela cidade era maravilhosa: "Engano seu. Isso aqui é um lugar lindo, onde tentaram fazer uma cidade."
Tava certo ele, inclusive sobre esse pedação de mundo chamado Brasil: um lugar lindo, onde em algum dia, mas faz tempo, tentaram fazer um país.




