domingo, 2 de setembro de 2018

Um belo lugar com um cidade sobre ela… Rio de Janeiro

Era uma tórrida manhã de verão no Rio, há pouco mais de 15 anos.

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Tinha que sair fardado, e assim entrei num táxi na Praça Mauá. O motorista foi amistoso: "Pra onde, 'Ashpíra'?" (varreu-me com o olhar e se corrigiu) "Né 'Asiprante' que fala não, né?" "É 'Guarda-Marinha'", falei sorrindo. "Verdade",ele riu, "vocês são todos 'mordomos'!" Mais uma gíria nova. Respondi, "Para São Cristóvão, pro Museu".

Ele engatou de pronto e partimos. Tirei o boné mesmo sem poder. Tava calor e ele percebeu meu incômodo. "Olha só, o ar condicionado pifou. Se o senhor quiser pode descer, vai desculpando aê." "Fica tranquilo. Demora até lá?" "Não. A Presidente Vargas tá boa. Nem meia hora."

Se ele fosse mineiro e dissesse que seria "rapidín" eu desceria do táxi. Sendo ele um carioquíssimo, continuei. Fechei os olhos para sentir o vento, quente também. O táxi parou num semáforo, perto da Candelária. Ele me olhou pelo retrovisor: "Posso te pagar um sorvete, Tenente? Pra tu não ficar bravo com o ar condicionado." Antes que eu dissesse qualquer coisa ele me estendeu um picolé. "Só tinha de leite condensado. Deve ser horroroso!" E rimos.

Era horroroso mesmo, mas era gelado. Ele franziu o cenho antes de voltar a falar, com a voz cheia de picolé: "Aê... meu pai foi sargento da Marinha, sabia?" Levantei as sombrancelhas como se já soubesse de toda a vida daquele jovem, menos disso. Ele continuou, "Mas tá aposentado. Cara, ele era sargento músico dos Fuzileiros. Maior talento, o Velho. Aí botaram ele pra fazer uma instrução de tiro. Sei lá que zerda deu que explodiu um treco que perfurou o tímpano dele. Aí ele não serviu mais pra banda. Até tentou mas não teve jeito. Aposentaram o Velho e aí que ele não prestou pra nada mesmo. Ficou na cachaça com mulher da vida..."

Ele fez uma pausa. Continuou.

"Aí minha mãe pôs ele pra fora. Tu não queira saber como é ter pena do pai quando tu ainda é moleque. Dá um nó que não some." Daí ele se calou. Deu para ver que estava com os olhos arregalados, e fazia um sinal de negativo com a cabeça de vez em quando. Já na Quinta da Boa Vista ele anunciou: "Chegamos, Tenente!" Pus a mão no bolso e ele disse com os olhos fechados, "Olha só, não leva a mal não, mas eu não vou te cobrar nada não. Tá tudo maneiro. Pode ir, bom passeio!" Eu entendi que ele queria esquecer aquela corrida.

Já na entrada do Museu Nacional, reagi ao primeiro pasmo me dizendo que, se tivesse filhos, os levaria ali um dia. Pois é…

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Hoje eu me lembrei do taxista, do seu pai, de ambos consumidos pela amargura, enquanto o Museu era consumido pelo fogo. Era um Museu de História Natural. Guardava a Natureza, a nossa Natureza, das poucas coisas que nos davam orgulho de aqui ter nascido. O desleixo com nosso bem mais fortemente simbólico fez lembrar uma frase de um colega daqueles tempos, dita com a verve típica dos cariocas, ao me responder quando me ouviu dizer o quanto aquela cidade era maravilhosa: "Engano seu. Isso aqui é um lugar lindo, onde tentaram fazer uma cidade."

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Tava certo ele, inclusive sobre esse pedação de mundo chamado Brasil: um lugar lindo, onde em algum dia, mas faz tempo, tentaram fazer um país.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Cresça, Jorge…

Jorge Castañeda, assim como Eduardo Galeano, Capra e outros, é um autor que a gente leva a sério na adolescência. Depois de adulto tem-se outra visão de suas ideias. Galeano rejeitou seu "Veias abertas..." depois de velho (Nota do Editor: o livro “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano). Não foi culpa dele. Livros assim só se rejeitam depois de velho.

Castañeda escreveu no New York Times, a respeito da prisão de Lula, que a "Democracia deve prevalecer sobre a Justiça." Diante disso aí que ele disse, é preciso sair um pouco do mérito da prisão de Lula e encarar estes conceitos que ele sobrepôs, mas o faremos como adultos…

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Por "Democracia" eu imagino que ele tenha considerado a "vontade da maioria". Ora, se a maioria quer que Lula esteja livre da cadeia, que seja respeitada e dane-se a Justiça. Falta saber o que ele considera "Justiça". É um conceito bagunçado de entender mesmo. Mas é algo fundamental à Democracia, por quanto a ordena.

É algo tão difícil de entender que se estabeleceu um Poder Republicano só para cuidar disso, o Judiciário. É do humano achar que quando o Judiciário faz algo que nos desagrada, faz uma injustiça. Por conta disso é que se estabeleceram as Instâncias Superiores, que são tribunais que dão uma corrigida nas decisões de outros tribunais caso elas estejam erradas (ou "injustas") ou assinam embaixo caso as considerem corretas. Ainda assim, na maioria dos países há uma terceira Instância para reconferir o conferido e assim assegurar a Justiça. No Brasil temos quatro instâncias, porque a gente gosta das coisas bem justinhas.

O que Castañeda não considera, o que é estranho para quem foi Chanceler de seu país, é o conceito de "República". Significa "Coisa do Povo", ou se me permitem, "Coisa de Todos". Um governo republicano, composto por seus três poderes, zela pela Coisa que é de Todos. Não só da Maioria. E em nome disso, deve manter preso quem zelou mal do dinheiro que lhe foi confiado por Todos.

Ainda que alguns, que seja a Maioria, perdoem esse roubo porque o Paínho deu bolsa-família "pra nóis", o roubo existiu e foi sobejamente demonstrado. E, em nome da boa gestão da "Coisa de Todos", por "Justiça" se entende punir quem rouba.

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Parece que Castañeda compreendeu isso, o que já é um alento. Tanto que não discute o ponto, apenas quer que sua vontade esteja acima da Justiça. Falta alguém avisar a ele - mas eu acho que só a maturidade pode fazer isso - que subverter a Justiça a vontades é típico de totalitarismos. Nada é mais antidemocrático do que isso.

Cresça, Jorge!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A burocracia deveria existir para todos

Há muitas histórias sobre burocracia. Já deixei de receber por dois meses de trabalho porque não entreguei a cópia do título de eleitor - depois pagaram retroativo. Numa outra oportunidade, exigiram uma cópia autenticada de um documento sendo que eu portava o original comigo. Bastava que a pessoa atestasse ali, de boa fé, a autenticidade. Usei o termo "boa fé" tecnicamente, e talvez ela tenha entendido errado pois passou a elevar a voz.

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Não estava escrito em nenhuma de nossas leis que se masturbar nos ombros de uma mulher - e ejacular - fosse crime. Agora parece que está, e quem fizer isso pode ser condenado a sei lá quanto tempo de cana.

Vimos ontem que o burocratismo, tão nosso, tão entranhadamente nosso, parece ter fraquejado. Um candidato a presidente registrou sua candidatura com falta de documentação. Não apresentou o atestado de antecedentes criminais. Talvez pelo fato de se encontrar preso. Sem o atestado o processo não pode andar. Sem ele, também não há como provar que o tal candidato está preso. Até porque não há, na letra da lei, nada escrito sobre alguém preso não poder se candidatar.

De tal maneira que se usou de uma manobra marota, ixpérta, "inteligente": tenta-se o registro de uma candidatura que se sabe inviável, aguarda-se alguém com coragem para dizer que sem o atestado de antecedentes criminais não se pode registrar uma candidatura (no Brasil tem que ter coragem para cumprir a lei) e daí se indefere a tal candidatura, o que naturalmente vai gerar uma grita sobre isso ser uma perseguição e que absurdo e etc. Aproveitar-se desta forma de brechas na lei é se igualar ao masturbador do ônibus, de quem se possa sempre dizer se tratar de doente mental.

Os doentes mentais tem tratamento. Os doentes morais não.

Ontem atendi a uma mulher que não pôde pegar as caixas do remédio de seu filho na farmácia do SUS, porque ela não tinha um comprovante de endereço no seu nome - pelo fato de ter se mudado há dois meses. Ela recebe salário mínimo e as caixas das medicações custam pouco mais de 700 reais por mês. Ela só vai poder retirar novo lote em três meses. Isso porque os funcionários da farmácia a tratam pelo nome, pois há anos ela vai até lá.

A falta de um papel ou carimbo ou selo pode impedir desde um emprego até um tratamento.

Mas a burocracia não é para todos. A gente sabe que não.

domingo, 15 de julho de 2018

Sobre a final da copa do mundo

Eu não vou torcer para ninguém hoje.

Consigo assistir a uma partida sem nem esboçar simpatia para nenhum lado, morram de inveja. Comecei com esta excentricidade vendo jogos de Tênis, ainda pequeno. Via os duelos entre Borg e McEnroe… Gelo x Fogo.

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Era fascinante. Torcer para algum tiraria um pouco do gosto do espetáculo. Assim foi com o Tênis até começarem com o "saque-voleio". Aquilo foi estranho. Fiquei distante do esporte, até surgir Federer, e um pouco depois Nadal. Um nos mostra o que será o Tênis daqui a cem anos. Outro joga algo primitivo, um proto-Tênis. Nenhum dos dois joga que nem todo mundo. É fascinante uma partida entre os dois. Talvez Djokovic, que aliás hoje faz a final de Wimbledon, condense o passado e o futuro deste esporte.

O Futebol anda na fase "saque-voleio". Os times ficam brincando de bobinho o tempo todo, até que o adversário abra uma avenida livre no campo e nessa hora alguém apronta uma correria conduzindo a bola e centra para outro marcar na cara do gol. É bonito. Mas os jogos passam modorrentos, com os atletas como a esperar a abertura de um portal. Ainda bem que tem as bolas paradas para sair mais gols.

Pode ser que dê França hoje. Tem mais camisa. Eu sei que isso também caiu de moda, mas me refiro à Camisa, literalmente. A Croácia, com todo respeito, só ganha em camisa do Sampaio Corrêa e do América Mineiro. O que é aquilo? Nem vem, vocês acham feia também. É que se acostumaram. Que nem água tônica. Se a Croácia fosse um país na década de 50, seu uniforme seria feito de patchwork.

Talvez levem vantagem nos nomes dos atletas. O acento doce da língua africana, somado à maciez gálica complica um pouco. Não dá para berrar com alguém chamado Umtiti, ou Dembelé. Mesmo o técnico tem seu prenome pronunciado como "Didiê". É tudo muito fofo, falo sério. Já os croatas, e seus nomes com nove consoantes juntas, sempre terminados em "ic", são mais passíveis de receberem ordens aos berros, daí correrem por quinhentas prorrogações nesta Copa. Sem falar que o técnico pode chamar qualquer um de qualquer coisa, basta terminar num "ítch". Aí ele vira para o banco e fala "você aí, Spirulitovítch! Você não, o do lado. É, você, rapá! Levanta aê, você vai entrar no lugar ali do camisa oito, o... Sbrâubausvítch. Bóra!"

Aliás, evoluímos. O técnico da Croácia assiste ao jogo segurando um rosário. O técnico da Alemanha segurava outra coisa...

O que a Croácia talvez nos mostre hoje seja uma síntese do futebol do passado com o do futuro. Façam os croatas na Copa, o que um sérvio fez no tênis. Tanto uns como o outro reinventaram ou descobriram seu orgulho pátrio. Fazer isso com esportes talvez seja um predestino de ex-iugoslavos, no que talvez uma vitória croata fosse salutar.

Mas não que eu vá torcer. Eu vou dormir. Estou saindo de um plantão de 24 horas. Não tenho o preparo de um croata e de francês só tenho o nome. Dói-me um cansaço no corpo, que parece que não durmo desde a época do futebol-arte.

Bom jogo!

NOTA DO EDITOR… Deu França!

064 - frança 4-2 croácia

domingo, 24 de junho de 2018

Superação e/ou Performance

É o que se espera de um grande atleta, alçado à posição de ídolo. A rigor, um entertainer serve pra nos fazer esquecer dos boletos, transferindo aos seus atos públicos as conclusões das nossas mazelas - porque o problema dos nossos problemas é que eles nunca tem fim.

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Torcíamos para os gladiadores romanos ganharem dos leões, e assim juntarem os dois pressupostos acima - performance e superação. Assim sublimávamos nossas frustrações. Quando falhavam, todos falhávamos, daí o mínimo esperado era de que o imperador baixasse o dedo e a "justiça" fosse feita.

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Este limiar entre céu e inferno é o caminho dos ídolos, dos fora-de-série, mormente no esporte. Assim acontece com os nossos. Sempre foi assim. Ronaldo, na França em 98, teve que dizer a um repórter, "do jeito que você fala, parece que eu não quero ganhar a Copa." E aí teve aquele piripaque na final, que de tão óbvio virou teoria conspiratória. Depois arrebentou horrorosamente o joelho e este fato fez com que chegasse em 2002 com metade da fatura paga, a da Superação. Com a idade (26 anos) e com as costas mais leves, foi fundamental para o título, e todos reconheceram que ele encarnou aí o dístico sagrado "Superação e performance", que o coloca nos Panteões.

Bem se diga que performance não quer dizer necessariamente "resultados". A Seleção de 82 e os holandeses de 74 são incensados por suas performances. Suas superações? A injustiça do universo é insuperável mesmo, e mesmo os ídolos não podem se haver com Deus. Este Destino os absolve, junto, obviamente, com suas performances. Dentro desta mesma categoria temos Cristiano Ronaldo. Uma performance impecável, mas que não trará resultados, sendo que a superação de carregar um time de bagres nas costas não só o absolve mas o enleva.

Aqui, da arquibancada do Coliseu, queremos estes dois atributos. Sempre. Nada menos. Relevamos usar cabelo Cascão, a ojeriza aos treinos, mandar aumentar a saliência peniana da própria estátua, relevamos a cachaça e, no extremo dos extremos damos até um jeitinho de afirmar que aquele que não reconheceu a filha foi o Edson e "a gente sabe separar as coisas". Mas escalpelaremos impiedosamente se não nos derem performance e/ou superação.

Um golzinho no fim do jogo, nos acréscimos concedidos com a parcimônia de um juiz corintiano, ainda no meio de uma primeira fase e diante de um adversário pífio pode ser uma redenção pessoal. Mas pra ninguém, não só para os brasileiros, foi sinônimo de performance ou de superação.

O "Menino" pode jogar vestido de Clóvis Bournai, cair com berros de politrauma a cada sopro que lhe derem na nuca, mas que nos entregue o esperado, ou seja, Superação e Performance dignas desse nome.

Do contrário, pediremos a Nero que abaixe o dedo. O que isso significa? Que no minuto seguinte estaremos torcendo pra Dança dos Famosos ou para a pobre pagadora do carnê do Baú. E que na segunda-feira o máximo será um comentário na fila do seguro-desemprego, do busão ou no bandex da firma.

Porque, a rigor é isso que são: palhaços de circo.

Se colocamos o orgulho nacional em seus ombros, aí sim o problema será nosso.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Saudades…

Eu era aluno do primário, no começo dos 80, quando houve uma campanha de vacinação contra a Febre Amarela na minha escola. Fomos postos em fila e bovinamente nos pusemos a marchar para a picada.

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Ao chegar perto, vi um técnico de enfermagem aplicando a vacina usando algo parecido com uma pistola. Um a um meus colegas iam passando e levando a ferroada, impiedosamente desferida pelo mesmo instrumento.

Na minha vez empaquei. Abaixei a manga da minha camisa branca, vincada pela goma e me recompus. Altivamente disse que não tomaria a vacina, pois a pistola estava servindo para todos e eu havia visto no Fantástico no último domingo que se a agulha fosse a mesma para todos, eu pegaria AIDS.

Formou-se um pequeno pandemônio, pois passei a usar minha única arma argumentativa (a melhor até hoje inventada): o choro, enquanto o profissional ameaçava chamar meu pai, minha mãe, o diretor da escola e nada me comovia.

Um médico, pai de um colega, passava por ali e me tranquilizou dizendo "fique calmo, essa doença só pega em gays". Fiquei olhando para ele, enquanto maquinalmente levantei a manga da camisa para receber a espinhada e fosse o que Deus quisesse.

Dias depois meu pai conversava com amigos na sala de casa e contou minha saga para eles, que se riram de mim, mas de forma carinhosa. Afagaram minha cabeça e disseram que tudo iria ficar bem.

Ato contínuo começaram a falar do flagelo da AIDS, até que um deles, mais gaiato, disse "que saudades da gonorreia e do Figueiredo". E todos caíram na gargalhada, inclusive eu.

Ainda não sabia a força de uma ironia, mas, juntando o fato que papai comemorou a (quase) subida de Tancredo e a consequente ascensão de Sarney, eu julgava que estavam brincando acerca de uma eventual saudade de um ditador, assim como de uma doença venérea.

Tem gente com saudades do preço da gasolina no tempo da Dilma, e que ainda atribui aos paneleiros a greve dos caminhoneiros. Eu já não era um rapazote nos tempos Dílmicos, pelo contrário. Dava para ver que aquele preço baixo era artificial e criava uma bomba relógio, que enfim explodiu.

Na verdade eu não sei se isso é saudade ou birra - posto que se saudade fosse, Dilma estaria explicando em rede nacional sua fórmula milagrosa para o baixo preço da gasolina. Também entendemos que esta atual gestão deixou o preço do diesel flutuar de forma sádica, largando os transportadores sem condições de operação, dado que o troço cada dia custava um valor. No fim, ficam dois registros, de um lado e de outro, de mau uso de uma estatal - ainda que os registros de bom uso sejam minguadíssimos.

É... Por mais que haja birra, ainda não vi estampada com todas as letras a expressão "saudades da Dilma". Da gonorreia ninguém precisa ter saudade, nem da febre amarela, cuja vacina agora é por seringas descartáveis - eu quando garoto acertava bem mais que agora.

Já a turma que tem saudade do Figueiredo parece mesmo estar falando sério...

sábado, 26 de maio de 2018

Uma greve sempre é uma chantagem

Uma greve sempre é uma chantagem…

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Quando envolve empregados pobres emparedando seus ricos patrões, o impulso inicial é de simpatia à causa, uma vez que se inverte ainda que momentaneamente o que em nosso imaginário se coloca como uma "ordem de opressão". Passam os oprimidos a opressores , sempre num jugo binário. Mas ainda é uma chantagem. Cervantes dizia que "não há vingança justa". A pergunta que se impõe é: existe chantagem justa?

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Emanuel Levinas, em sua filosofia sobre a Ética, nos trouxe a noção de "Alteridade". Por este conceito, a noção de "Outro" só se faz plena se diante do "Eu" este "Outro" se materializar em um rosto. Levando para um extremo, em cada ação minha eu preciso enxergar o rosto do outro sobre o qual recairá aquela ação. Só depois de submetida a este crivo é que saberemos se tal ação foi "ética".

A Câmara dos Deputados aprovou um projeto desonerando o diesel de impostos. Atenção: este montante que deixará de ser arrecadado pelo governo será transferido para impostos cobrados em outras áreas. Alguém vai pagar por este diesel para que aqueles que dele precisem paguem menos. Este foi um claro sinal do governo aos caminhoneiros que deixaram o país de joelhos. O que me move a vir aqui considerar a questão é que eles decidiram por continuar a greve até que o senado decida a questão, ou mesmo até que o presidente assine a medida.

Ao manter a greve, a categoria escancara o principal dilema do movimento: o da pressão exercida sobre o opressor - no caso o governo - através da criação de uma nova, ainda que transitória, classe de oprimidos - no caso nós, os "Outros". Nós que estamos na fila do posto de gasolina. Nós que estamos esperando um ônibus que talvez não venha. Nós que vamos comprar um remédio que talvez não tenha. Nós que apenas queremos bater nosso ponto no horário. Nós que só queremos passar pela estrada bloqueada, e não interessa a ninguém por que queremos.

A pergunta aos caminhoneiros é: vocês estão vendo nosso rosto? Qualquer resposta é demeritosa. Se não estão vendo é porque só tem um espelho diante de si. Se estão vendo é porque aceitam a criação de uma nova classe de oprimidos não como um colateral mas como o cerne de seu movimento.

Ser simpático a esta greve significa ser solidário e aceitar o papel de oprimido.

Talvez até ontem eu aceitasse.

Mas agora já deu.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O rio Itororó e a Av. 23 de Maio

Preso no trânsito da 23 de Maio, pus-me a observar o entorno. Trata-se de uma via expressa. Ou seja, ela não pode ter sinais de trânsito nem casas ou estabelecimentos em sua extensão.

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Dei um Google (tô com o carro parado, seus chatos), e vi que ela se situa sobre o leito do rio Itororó, que corre canalizado embaixo da gente agora, e que batizou originalmente a Avenida. O nome alusivo ao dia em que quatro estudantes foram mortos por uma milícia getulista há exatos 86 anos foi dado bem depois.

Essa Avenida foi pensada por Prestes Maia, que iniciou sua construção na mesma época em que desprezava um projeto para um Metrô em São Paulo. Preferiu fazer uma via para a circulação de veículos, onde nem o bonde teria vez. Eu já morava aqui em 2004 quando, por conta das comemorações dos 450 anos da cidade, cogitaram fechar a 23 em toda sua extensão para um desfile de carros alegóricos.

Mas o salseiro no trânsito seria tamanho, mesmo num feriado, que alguém de bom senso abortou a ideia. Um tempo depois a prefeitura tentou um corredor de motos rasgando a via. Durou dois dias, dado o ódio que a humanidade, inclusive os motociclistas, tomaram da ideia. Aí pintaram no chão quatro faixas, onde antes havia três e disseram que aumentou a fluidez, ainda que fosse a fluidez para formar engarrafamentos. Foi então que decretaram que esta faixa adicional, onde mal cabia um carro, agora teria que caber um ônibus, de tal sorte que todos sabemos onde os ônibus estarão engarrafados.

Foto: Rafael Guimarães

Os meninos do MMDC já tem uma rua para cada um no Butantã. Merecem as ruas, o mausoléu e o obelisco do Ibirapuera. Morreram hoje pela liberdade - Dráusio, o "D" da sigla, morreu três dias depois, mas tomou os tiros junto com os outros.

A data em si talvez merecesse outra homenagem. Ser nome de Avenida em São Paulo pode por vezes significar uma ofensa. Talvez pudessem ter mantido Avenida Itororó, e seria uma reparação ao rio, pelo fato de o terem subjugado em nome do progresso.

Avenida 23 de maio em 1968. Foto: Luiz Manoel/FotoRepórter/AE

O metrô de Buenos Aires começou a ser feito bem antes desta avenida. Mas parece que lá também o trânsito é ruim. Dá a impressão de que esse mundo véio não tem jeito.

Ainda mais quando o motorista atrás de mim buzina loucamente para que eu mova meu possante, já que o trânsito andou uns dois metros e meio…

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O Foro Privilegiado não deveria ser totalmente extinto

É lamentável que o Foro Privilegiado seja totalmente extinto. Ele deveria ser mantido para autoridades de alto escalão do executivo, como presidente, ministros, governadores e secretários. Nossa experiência recente com ele foi boa.

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Muitos presos pelo Mensalão o foram por força de decisão do STF, à qual, por conta de ter sido lavrada na mais superior das instâncias, não cabe recurso. A idéia do Foro Privilegiado tira dos "privilegiados" a possibilidade de uma instância revisora. Faz com que sejam réus de uma instância só. Se considerados culpados, culpados serão. Sem recurso. Nem a Corte de Haia, a ONU, nada os salva da condenação, nem mesmo a apreciam em revisão. Foi assim com José Dirceu.

E o espírito desta lei faz isso, pasme, para imputar ao político sua devida responsabilidade. Como se dissesse "olha, Magano, se tu escorregar e se desviar moralmente não vai ter esse lenga-lenga de só ser culpado depois do trânsito completo pelas instâncias. Pra você é uma instância só, playboy!".

Só mesmo um arranjo institucional doente, arregimentado e operado por amorais permite a distorção deste conceito. Daí, ao invés de entender as razões do disparate, nos adaptamos a ele. Tem gente (gente muito boa, sem ironias) dizendo que é preciso evitar que os processos cheguem ao STF. Ao invés de repensar nossa Suprema Corte, a gente arruma um jeito de se defender dela.

Comemorar o fim do Foro Privilegiado, e que se dane se esse nome é ruim, é comemorar nossa falência enquanto sociedade, é carnavalizar a decadência, é cantar vivas quando caberia um réquiem.

quarta-feira, 28 de março de 2018

Vamos dissipar o clima de guerra civil

Quando se vai para o "tudo ou nada", assume-se o risco do "nada".

Por isso é sempre uma forma tresloucada de agir. Em nossa história não temos tradição de partir para o arrebento. Nossa independência de Portugal foi proclamada por um português.

Nossa república foi proclamada por um monarquista.

O ditador mais sanguinário que manchou nossa história pôs fim à sua na calada da noite.

Abortamos uma investida comunista com uma contra-revolução militar, a qual até hoje chamamos de "revolução", e ainda por cima lembramos o fato na data errada. Esse período ditatorial acabou por meio da Anistia, uma concertação nacional onde politicamente se optou por apascentar os dois lados.

Estes fatos fazem nossa história ser única, bela e complexa.

É preciso serenidade. Sempre. Somos uma democracia. Este é o valor a ser defendido. Por todos.

Que Lula colha o que plantou sendo condenado e preso, dentro dos ditames constitucionais, tendo respeitado seu direito de defesa, mesmo que o processo pareça leniente.

Se eu ofereço barreira para impedir a progressão de uma caravana de cujas posições políticas eu discordo, eu apenas me igualo a quem queimou pneus e me impediu de ir trabalhar. O preceito bíblico de "dar a outra face" não se escora no perdão, mas na resistência. Ensina que a melhor forma de resistir é mantendo a serenidade.

Quem mata uma vereadora e seu motorista é um bandido. Quem atira num ônibus é também um bandido. Mas não seriam menos bandidos se matassem uma vereadora em que eu tivesse votado ou atirasse no ônibus que levasse a comitiva do meu candidato a presidente.

Vivemos um momento único de nossa história, porque estamos perdendo a perspectiva que só a serenidade confere. Já fui pessoalmente perseguido pelos que hoje tomam pedras e ovos. É uma sensação horrível. Não devolver com pedras e ovos é um ato de resistência, não de perdão e muito menos de covardia.

É preciso se dissipar o clima de guerra civil. Senão ela acontece.

sexta-feira, 23 de março de 2018

As semelhanças entre Lula e a Sibila de Cumas

Após dias como ontem, acordamos com a sensação de terra devastada.

Parece que nos levaram um país inteiro. "Terra Devastada", aliás é nome de um poema de T.S. Elliot (sempre é bom recorrer a uma obra-prima após se descrer na humanidade), cuja epígrafe, tirada do Satyricon de Petrônio, trazia:

Com meus próprios olhos vi em Cumas a Sibila, suspensa dentro de uma ampola. E quando as crianças lhe perguntavam: ‘o que queres?’, ela dizia: ‘morrer’.

Sibilas eram sacerdotisas que tinham contato direto com Apolo. Consta que esta, a de Cumas, levou Enéas aos infernos, onde ele obteve revelações sobre seu destino. De Cumas (que fica perto de Nápoles) ele partiu para a região do Lácio e por lá ficou um tempo. Essa passagem está na Ilíada e na Eneida - sempre é bom, repito, recorrer à grandes obras dos homens, mormente após atropelados por obras tão pequenas como a do STF ontem.

Bom, a Sibila de Cumas fez um trato com Apolo para não morrer. Apolo, maroto, concedeu-lhe a eternidade, e lhe concederia ainda a juventude eterna, desde que ela lhe desse a virgindade. A Sibila não desceu a tanto e se recusou ao desfrute. E só nisso se difere de Lula.

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Lula não acabou com o Brasil. Ele só perdeu uma chance, tendo sido o brasileiro que mais dispôs de oportunidades para nos colocar nos eixos - nem Pedro II dispôs de tanto. Mas só quis os rega-bofes do poder e se esbaldou. Foi só um deslumbrado cercado de rapinas. Não será preso. Jamais será. Também não será eleito de novo. Também não voltará ao sítio de Atibaia, nem irá ver o Atlântico do triplex pé-na-areia. Tem mais meia dúzia de processos que lhe morderão o calcanhar pelo resto de vida que tem.

Terá muitas Bagés pelo caminho.

Ontem foi o dia em que uma ministra de nossa Suprema Corte disse que não poderia ficar para a histórica votação porque tinha vôo marcado. Cada momento crucial da história tem o seu "que comam brioches". Os doutos juízes do Supremo são a versão togada de Sérgio Cabral, de Marcelo Odebrecht. São a parte envernizada da mesma escumalha.

Saímos do inferno ontem, como Enéas. Como ele, rumemos para o Lácio. Nossa meta é resistir numa terra inóspita e pedregosa, conquistada após uma guerra sangrenta. Enéas deixou seu filho, Ascânio, no Lácio, como aqui deixaremos os nossos. Dois longínquos descendentes de Ascânio, Rômulo e Remo, fundaram uma cidade naquele lugar que mudaria o mundo.

Nós não veremos este país cumprir seu ideal. Mas seremos parte dele. Nossa resistência será o mais forte dos alicerces.

E Lula? No final do poema de Eliot, o poderoso ainda pergunta "Terei ao menos minhas terras posto em ordem?"

Lula não se fará essa pergunta, não por arrogância mas por se preocupar com a própria sorte. Assim como a Sibila de Cumas, irá permanecer solto – e vivo – testemunhando a indignidade de sua história… talvez até no íntimo desejando ser preso.