Eu não vou torcer para ninguém hoje.
Consigo assistir a uma partida sem nem esboçar simpatia para nenhum lado, morram de inveja. Comecei com esta excentricidade vendo jogos de Tênis, ainda pequeno. Via os duelos entre Borg e McEnroe… Gelo x Fogo.
Era fascinante. Torcer para algum tiraria um pouco do gosto do espetáculo. Assim foi com o Tênis até começarem com o "saque-voleio". Aquilo foi estranho. Fiquei distante do esporte, até surgir Federer, e um pouco depois Nadal. Um nos mostra o que será o Tênis daqui a cem anos. Outro joga algo primitivo, um proto-Tênis. Nenhum dos dois joga que nem todo mundo. É fascinante uma partida entre os dois. Talvez Djokovic, que aliás hoje faz a final de Wimbledon, condense o passado e o futuro deste esporte.
O Futebol anda na fase "saque-voleio". Os times ficam brincando de bobinho o tempo todo, até que o adversário abra uma avenida livre no campo e nessa hora alguém apronta uma correria conduzindo a bola e centra para outro marcar na cara do gol. É bonito. Mas os jogos passam modorrentos, com os atletas como a esperar a abertura de um portal. Ainda bem que tem as bolas paradas para sair mais gols.
Pode ser que dê França hoje. Tem mais camisa. Eu sei que isso também caiu de moda, mas me refiro à Camisa, literalmente. A Croácia, com todo respeito, só ganha em camisa do Sampaio Corrêa e do América Mineiro. O que é aquilo? Nem vem, vocês acham feia também. É que se acostumaram. Que nem água tônica. Se a Croácia fosse um país na década de 50, seu uniforme seria feito de patchwork.
Talvez levem vantagem nos nomes dos atletas. O acento doce da língua africana, somado à maciez gálica complica um pouco. Não dá para berrar com alguém chamado Umtiti, ou Dembelé. Mesmo o técnico tem seu prenome pronunciado como "Didiê". É tudo muito fofo, falo sério. Já os croatas, e seus nomes com nove consoantes juntas, sempre terminados em "ic", são mais passíveis de receberem ordens aos berros, daí correrem por quinhentas prorrogações nesta Copa. Sem falar que o técnico pode chamar qualquer um de qualquer coisa, basta terminar num "ítch". Aí ele vira para o banco e fala "você aí, Spirulitovítch! Você não, o do lado. É, você, rapá! Levanta aê, você vai entrar no lugar ali do camisa oito, o... Sbrâubausvítch. Bóra!"
Aliás, evoluímos. O técnico da Croácia assiste ao jogo segurando um rosário. O técnico da Alemanha segurava outra coisa...
O que a Croácia talvez nos mostre hoje seja uma síntese do futebol do passado com o do futuro. Façam os croatas na Copa, o que um sérvio fez no tênis. Tanto uns como o outro reinventaram ou descobriram seu orgulho pátrio. Fazer isso com esportes talvez seja um predestino de ex-iugoslavos, no que talvez uma vitória croata fosse salutar.
Mas não que eu vá torcer. Eu vou dormir. Estou saindo de um plantão de 24 horas. Não tenho o preparo de um croata e de francês só tenho o nome. Dói-me um cansaço no corpo, que parece que não durmo desde a época do futebol-arte.
Bom jogo!
NOTA DO EDITOR… Deu França!
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