quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Cresça, Jorge…

Jorge Castañeda, assim como Eduardo Galeano, Capra e outros, é um autor que a gente leva a sério na adolescência. Depois de adulto tem-se outra visão de suas ideias. Galeano rejeitou seu "Veias abertas..." depois de velho (Nota do Editor: o livro “As Veias Abertas da América Latina” de Eduardo Galeano). Não foi culpa dele. Livros assim só se rejeitam depois de velho.

Castañeda escreveu no New York Times, a respeito da prisão de Lula, que a "Democracia deve prevalecer sobre a Justiça." Diante disso aí que ele disse, é preciso sair um pouco do mérito da prisão de Lula e encarar estes conceitos que ele sobrepôs, mas o faremos como adultos…

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Por "Democracia" eu imagino que ele tenha considerado a "vontade da maioria". Ora, se a maioria quer que Lula esteja livre da cadeia, que seja respeitada e dane-se a Justiça. Falta saber o que ele considera "Justiça". É um conceito bagunçado de entender mesmo. Mas é algo fundamental à Democracia, por quanto a ordena.

É algo tão difícil de entender que se estabeleceu um Poder Republicano só para cuidar disso, o Judiciário. É do humano achar que quando o Judiciário faz algo que nos desagrada, faz uma injustiça. Por conta disso é que se estabeleceram as Instâncias Superiores, que são tribunais que dão uma corrigida nas decisões de outros tribunais caso elas estejam erradas (ou "injustas") ou assinam embaixo caso as considerem corretas. Ainda assim, na maioria dos países há uma terceira Instância para reconferir o conferido e assim assegurar a Justiça. No Brasil temos quatro instâncias, porque a gente gosta das coisas bem justinhas.

O que Castañeda não considera, o que é estranho para quem foi Chanceler de seu país, é o conceito de "República". Significa "Coisa do Povo", ou se me permitem, "Coisa de Todos". Um governo republicano, composto por seus três poderes, zela pela Coisa que é de Todos. Não só da Maioria. E em nome disso, deve manter preso quem zelou mal do dinheiro que lhe foi confiado por Todos.

Ainda que alguns, que seja a Maioria, perdoem esse roubo porque o Paínho deu bolsa-família "pra nóis", o roubo existiu e foi sobejamente demonstrado. E, em nome da boa gestão da "Coisa de Todos", por "Justiça" se entende punir quem rouba.

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Parece que Castañeda compreendeu isso, o que já é um alento. Tanto que não discute o ponto, apenas quer que sua vontade esteja acima da Justiça. Falta alguém avisar a ele - mas eu acho que só a maturidade pode fazer isso - que subverter a Justiça a vontades é típico de totalitarismos. Nada é mais antidemocrático do que isso.

Cresça, Jorge!

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

A burocracia deveria existir para todos

Há muitas histórias sobre burocracia. Já deixei de receber por dois meses de trabalho porque não entreguei a cópia do título de eleitor - depois pagaram retroativo. Numa outra oportunidade, exigiram uma cópia autenticada de um documento sendo que eu portava o original comigo. Bastava que a pessoa atestasse ali, de boa fé, a autenticidade. Usei o termo "boa fé" tecnicamente, e talvez ela tenha entendido errado pois passou a elevar a voz.

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Não estava escrito em nenhuma de nossas leis que se masturbar nos ombros de uma mulher - e ejacular - fosse crime. Agora parece que está, e quem fizer isso pode ser condenado a sei lá quanto tempo de cana.

Vimos ontem que o burocratismo, tão nosso, tão entranhadamente nosso, parece ter fraquejado. Um candidato a presidente registrou sua candidatura com falta de documentação. Não apresentou o atestado de antecedentes criminais. Talvez pelo fato de se encontrar preso. Sem o atestado o processo não pode andar. Sem ele, também não há como provar que o tal candidato está preso. Até porque não há, na letra da lei, nada escrito sobre alguém preso não poder se candidatar.

De tal maneira que se usou de uma manobra marota, ixpérta, "inteligente": tenta-se o registro de uma candidatura que se sabe inviável, aguarda-se alguém com coragem para dizer que sem o atestado de antecedentes criminais não se pode registrar uma candidatura (no Brasil tem que ter coragem para cumprir a lei) e daí se indefere a tal candidatura, o que naturalmente vai gerar uma grita sobre isso ser uma perseguição e que absurdo e etc. Aproveitar-se desta forma de brechas na lei é se igualar ao masturbador do ônibus, de quem se possa sempre dizer se tratar de doente mental.

Os doentes mentais tem tratamento. Os doentes morais não.

Ontem atendi a uma mulher que não pôde pegar as caixas do remédio de seu filho na farmácia do SUS, porque ela não tinha um comprovante de endereço no seu nome - pelo fato de ter se mudado há dois meses. Ela recebe salário mínimo e as caixas das medicações custam pouco mais de 700 reais por mês. Ela só vai poder retirar novo lote em três meses. Isso porque os funcionários da farmácia a tratam pelo nome, pois há anos ela vai até lá.

A falta de um papel ou carimbo ou selo pode impedir desde um emprego até um tratamento.

Mas a burocracia não é para todos. A gente sabe que não.