domingo, 24 de junho de 2018

Superação e/ou Performance

É o que se espera de um grande atleta, alçado à posição de ídolo. A rigor, um entertainer serve pra nos fazer esquecer dos boletos, transferindo aos seus atos públicos as conclusões das nossas mazelas - porque o problema dos nossos problemas é que eles nunca tem fim.

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Torcíamos para os gladiadores romanos ganharem dos leões, e assim juntarem os dois pressupostos acima - performance e superação. Assim sublimávamos nossas frustrações. Quando falhavam, todos falhávamos, daí o mínimo esperado era de que o imperador baixasse o dedo e a "justiça" fosse feita.

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Este limiar entre céu e inferno é o caminho dos ídolos, dos fora-de-série, mormente no esporte. Assim acontece com os nossos. Sempre foi assim. Ronaldo, na França em 98, teve que dizer a um repórter, "do jeito que você fala, parece que eu não quero ganhar a Copa." E aí teve aquele piripaque na final, que de tão óbvio virou teoria conspiratória. Depois arrebentou horrorosamente o joelho e este fato fez com que chegasse em 2002 com metade da fatura paga, a da Superação. Com a idade (26 anos) e com as costas mais leves, foi fundamental para o título, e todos reconheceram que ele encarnou aí o dístico sagrado "Superação e performance", que o coloca nos Panteões.

Bem se diga que performance não quer dizer necessariamente "resultados". A Seleção de 82 e os holandeses de 74 são incensados por suas performances. Suas superações? A injustiça do universo é insuperável mesmo, e mesmo os ídolos não podem se haver com Deus. Este Destino os absolve, junto, obviamente, com suas performances. Dentro desta mesma categoria temos Cristiano Ronaldo. Uma performance impecável, mas que não trará resultados, sendo que a superação de carregar um time de bagres nas costas não só o absolve mas o enleva.

Aqui, da arquibancada do Coliseu, queremos estes dois atributos. Sempre. Nada menos. Relevamos usar cabelo Cascão, a ojeriza aos treinos, mandar aumentar a saliência peniana da própria estátua, relevamos a cachaça e, no extremo dos extremos damos até um jeitinho de afirmar que aquele que não reconheceu a filha foi o Edson e "a gente sabe separar as coisas". Mas escalpelaremos impiedosamente se não nos derem performance e/ou superação.

Um golzinho no fim do jogo, nos acréscimos concedidos com a parcimônia de um juiz corintiano, ainda no meio de uma primeira fase e diante de um adversário pífio pode ser uma redenção pessoal. Mas pra ninguém, não só para os brasileiros, foi sinônimo de performance ou de superação.

O "Menino" pode jogar vestido de Clóvis Bournai, cair com berros de politrauma a cada sopro que lhe derem na nuca, mas que nos entregue o esperado, ou seja, Superação e Performance dignas desse nome.

Do contrário, pediremos a Nero que abaixe o dedo. O que isso significa? Que no minuto seguinte estaremos torcendo pra Dança dos Famosos ou para a pobre pagadora do carnê do Baú. E que na segunda-feira o máximo será um comentário na fila do seguro-desemprego, do busão ou no bandex da firma.

Porque, a rigor é isso que são: palhaços de circo.

Se colocamos o orgulho nacional em seus ombros, aí sim o problema será nosso.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Saudades…

Eu era aluno do primário, no começo dos 80, quando houve uma campanha de vacinação contra a Febre Amarela na minha escola. Fomos postos em fila e bovinamente nos pusemos a marchar para a picada.

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Ao chegar perto, vi um técnico de enfermagem aplicando a vacina usando algo parecido com uma pistola. Um a um meus colegas iam passando e levando a ferroada, impiedosamente desferida pelo mesmo instrumento.

Na minha vez empaquei. Abaixei a manga da minha camisa branca, vincada pela goma e me recompus. Altivamente disse que não tomaria a vacina, pois a pistola estava servindo para todos e eu havia visto no Fantástico no último domingo que se a agulha fosse a mesma para todos, eu pegaria AIDS.

Formou-se um pequeno pandemônio, pois passei a usar minha única arma argumentativa (a melhor até hoje inventada): o choro, enquanto o profissional ameaçava chamar meu pai, minha mãe, o diretor da escola e nada me comovia.

Um médico, pai de um colega, passava por ali e me tranquilizou dizendo "fique calmo, essa doença só pega em gays". Fiquei olhando para ele, enquanto maquinalmente levantei a manga da camisa para receber a espinhada e fosse o que Deus quisesse.

Dias depois meu pai conversava com amigos na sala de casa e contou minha saga para eles, que se riram de mim, mas de forma carinhosa. Afagaram minha cabeça e disseram que tudo iria ficar bem.

Ato contínuo começaram a falar do flagelo da AIDS, até que um deles, mais gaiato, disse "que saudades da gonorreia e do Figueiredo". E todos caíram na gargalhada, inclusive eu.

Ainda não sabia a força de uma ironia, mas, juntando o fato que papai comemorou a (quase) subida de Tancredo e a consequente ascensão de Sarney, eu julgava que estavam brincando acerca de uma eventual saudade de um ditador, assim como de uma doença venérea.

Tem gente com saudades do preço da gasolina no tempo da Dilma, e que ainda atribui aos paneleiros a greve dos caminhoneiros. Eu já não era um rapazote nos tempos Dílmicos, pelo contrário. Dava para ver que aquele preço baixo era artificial e criava uma bomba relógio, que enfim explodiu.

Na verdade eu não sei se isso é saudade ou birra - posto que se saudade fosse, Dilma estaria explicando em rede nacional sua fórmula milagrosa para o baixo preço da gasolina. Também entendemos que esta atual gestão deixou o preço do diesel flutuar de forma sádica, largando os transportadores sem condições de operação, dado que o troço cada dia custava um valor. No fim, ficam dois registros, de um lado e de outro, de mau uso de uma estatal - ainda que os registros de bom uso sejam minguadíssimos.

É... Por mais que haja birra, ainda não vi estampada com todas as letras a expressão "saudades da Dilma". Da gonorreia ninguém precisa ter saudade, nem da febre amarela, cuja vacina agora é por seringas descartáveis - eu quando garoto acertava bem mais que agora.

Já a turma que tem saudade do Figueiredo parece mesmo estar falando sério...