sábado, 26 de maio de 2018

Uma greve sempre é uma chantagem

Uma greve sempre é uma chantagem…

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Quando envolve empregados pobres emparedando seus ricos patrões, o impulso inicial é de simpatia à causa, uma vez que se inverte ainda que momentaneamente o que em nosso imaginário se coloca como uma "ordem de opressão". Passam os oprimidos a opressores , sempre num jugo binário. Mas ainda é uma chantagem. Cervantes dizia que "não há vingança justa". A pergunta que se impõe é: existe chantagem justa?

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Emanuel Levinas, em sua filosofia sobre a Ética, nos trouxe a noção de "Alteridade". Por este conceito, a noção de "Outro" só se faz plena se diante do "Eu" este "Outro" se materializar em um rosto. Levando para um extremo, em cada ação minha eu preciso enxergar o rosto do outro sobre o qual recairá aquela ação. Só depois de submetida a este crivo é que saberemos se tal ação foi "ética".

A Câmara dos Deputados aprovou um projeto desonerando o diesel de impostos. Atenção: este montante que deixará de ser arrecadado pelo governo será transferido para impostos cobrados em outras áreas. Alguém vai pagar por este diesel para que aqueles que dele precisem paguem menos. Este foi um claro sinal do governo aos caminhoneiros que deixaram o país de joelhos. O que me move a vir aqui considerar a questão é que eles decidiram por continuar a greve até que o senado decida a questão, ou mesmo até que o presidente assine a medida.

Ao manter a greve, a categoria escancara o principal dilema do movimento: o da pressão exercida sobre o opressor - no caso o governo - através da criação de uma nova, ainda que transitória, classe de oprimidos - no caso nós, os "Outros". Nós que estamos na fila do posto de gasolina. Nós que estamos esperando um ônibus que talvez não venha. Nós que vamos comprar um remédio que talvez não tenha. Nós que apenas queremos bater nosso ponto no horário. Nós que só queremos passar pela estrada bloqueada, e não interessa a ninguém por que queremos.

A pergunta aos caminhoneiros é: vocês estão vendo nosso rosto? Qualquer resposta é demeritosa. Se não estão vendo é porque só tem um espelho diante de si. Se estão vendo é porque aceitam a criação de uma nova classe de oprimidos não como um colateral mas como o cerne de seu movimento.

Ser simpático a esta greve significa ser solidário e aceitar o papel de oprimido.

Talvez até ontem eu aceitasse.

Mas agora já deu.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

O rio Itororó e a Av. 23 de Maio

Preso no trânsito da 23 de Maio, pus-me a observar o entorno. Trata-se de uma via expressa. Ou seja, ela não pode ter sinais de trânsito nem casas ou estabelecimentos em sua extensão.

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Dei um Google (tô com o carro parado, seus chatos), e vi que ela se situa sobre o leito do rio Itororó, que corre canalizado embaixo da gente agora, e que batizou originalmente a Avenida. O nome alusivo ao dia em que quatro estudantes foram mortos por uma milícia getulista há exatos 86 anos foi dado bem depois.

Essa Avenida foi pensada por Prestes Maia, que iniciou sua construção na mesma época em que desprezava um projeto para um Metrô em São Paulo. Preferiu fazer uma via para a circulação de veículos, onde nem o bonde teria vez. Eu já morava aqui em 2004 quando, por conta das comemorações dos 450 anos da cidade, cogitaram fechar a 23 em toda sua extensão para um desfile de carros alegóricos.

Mas o salseiro no trânsito seria tamanho, mesmo num feriado, que alguém de bom senso abortou a ideia. Um tempo depois a prefeitura tentou um corredor de motos rasgando a via. Durou dois dias, dado o ódio que a humanidade, inclusive os motociclistas, tomaram da ideia. Aí pintaram no chão quatro faixas, onde antes havia três e disseram que aumentou a fluidez, ainda que fosse a fluidez para formar engarrafamentos. Foi então que decretaram que esta faixa adicional, onde mal cabia um carro, agora teria que caber um ônibus, de tal sorte que todos sabemos onde os ônibus estarão engarrafados.

Foto: Rafael Guimarães

Os meninos do MMDC já tem uma rua para cada um no Butantã. Merecem as ruas, o mausoléu e o obelisco do Ibirapuera. Morreram hoje pela liberdade - Dráusio, o "D" da sigla, morreu três dias depois, mas tomou os tiros junto com os outros.

A data em si talvez merecesse outra homenagem. Ser nome de Avenida em São Paulo pode por vezes significar uma ofensa. Talvez pudessem ter mantido Avenida Itororó, e seria uma reparação ao rio, pelo fato de o terem subjugado em nome do progresso.

Avenida 23 de maio em 1968. Foto: Luiz Manoel/FotoRepórter/AE

O metrô de Buenos Aires começou a ser feito bem antes desta avenida. Mas parece que lá também o trânsito é ruim. Dá a impressão de que esse mundo véio não tem jeito.

Ainda mais quando o motorista atrás de mim buzina loucamente para que eu mova meu possante, já que o trânsito andou uns dois metros e meio…

segunda-feira, 7 de maio de 2018

O Foro Privilegiado não deveria ser totalmente extinto

É lamentável que o Foro Privilegiado seja totalmente extinto. Ele deveria ser mantido para autoridades de alto escalão do executivo, como presidente, ministros, governadores e secretários. Nossa experiência recente com ele foi boa.

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Muitos presos pelo Mensalão o foram por força de decisão do STF, à qual, por conta de ter sido lavrada na mais superior das instâncias, não cabe recurso. A idéia do Foro Privilegiado tira dos "privilegiados" a possibilidade de uma instância revisora. Faz com que sejam réus de uma instância só. Se considerados culpados, culpados serão. Sem recurso. Nem a Corte de Haia, a ONU, nada os salva da condenação, nem mesmo a apreciam em revisão. Foi assim com José Dirceu.

E o espírito desta lei faz isso, pasme, para imputar ao político sua devida responsabilidade. Como se dissesse "olha, Magano, se tu escorregar e se desviar moralmente não vai ter esse lenga-lenga de só ser culpado depois do trânsito completo pelas instâncias. Pra você é uma instância só, playboy!".

Só mesmo um arranjo institucional doente, arregimentado e operado por amorais permite a distorção deste conceito. Daí, ao invés de entender as razões do disparate, nos adaptamos a ele. Tem gente (gente muito boa, sem ironias) dizendo que é preciso evitar que os processos cheguem ao STF. Ao invés de repensar nossa Suprema Corte, a gente arruma um jeito de se defender dela.

Comemorar o fim do Foro Privilegiado, e que se dane se esse nome é ruim, é comemorar nossa falência enquanto sociedade, é carnavalizar a decadência, é cantar vivas quando caberia um réquiem.