É o que se espera de um grande atleta, alçado à posição de ídolo. A rigor, um entertainer serve pra nos fazer esquecer dos boletos, transferindo aos seus atos públicos as conclusões das nossas mazelas - porque o problema dos nossos problemas é que eles nunca tem fim.
Torcíamos para os gladiadores romanos ganharem dos leões, e assim juntarem os dois pressupostos acima - performance e superação. Assim sublimávamos nossas frustrações. Quando falhavam, todos falhávamos, daí o mínimo esperado era de que o imperador baixasse o dedo e a "justiça" fosse feita.
Este limiar entre céu e inferno é o caminho dos ídolos, dos fora-de-série, mormente no esporte. Assim acontece com os nossos. Sempre foi assim. Ronaldo, na França em 98, teve que dizer a um repórter, "do jeito que você fala, parece que eu não quero ganhar a Copa." E aí teve aquele piripaque na final, que de tão óbvio virou teoria conspiratória. Depois arrebentou horrorosamente o joelho e este fato fez com que chegasse em 2002 com metade da fatura paga, a da Superação. Com a idade (26 anos) e com as costas mais leves, foi fundamental para o título, e todos reconheceram que ele encarnou aí o dístico sagrado "Superação e performance", que o coloca nos Panteões.
Bem se diga que performance não quer dizer necessariamente "resultados". A Seleção de 82 e os holandeses de 74 são incensados por suas performances. Suas superações? A injustiça do universo é insuperável mesmo, e mesmo os ídolos não podem se haver com Deus. Este Destino os absolve, junto, obviamente, com suas performances. Dentro desta mesma categoria temos Cristiano Ronaldo. Uma performance impecável, mas que não trará resultados, sendo que a superação de carregar um time de bagres nas costas não só o absolve mas o enleva.
Aqui, da arquibancada do Coliseu, queremos estes dois atributos. Sempre. Nada menos. Relevamos usar cabelo Cascão, a ojeriza aos treinos, mandar aumentar a saliência peniana da própria estátua, relevamos a cachaça e, no extremo dos extremos damos até um jeitinho de afirmar que aquele que não reconheceu a filha foi o Edson e "a gente sabe separar as coisas". Mas escalpelaremos impiedosamente se não nos derem performance e/ou superação.
Um golzinho no fim do jogo, nos acréscimos concedidos com a parcimônia de um juiz corintiano, ainda no meio de uma primeira fase e diante de um adversário pífio pode ser uma redenção pessoal. Mas pra ninguém, não só para os brasileiros, foi sinônimo de performance ou de superação.
O "Menino" pode jogar vestido de Clóvis Bournai, cair com berros de politrauma a cada sopro que lhe derem na nuca, mas que nos entregue o esperado, ou seja, Superação e Performance dignas desse nome.
Do contrário, pediremos a Nero que abaixe o dedo. O que isso significa? Que no minuto seguinte estaremos torcendo pra Dança dos Famosos ou para a pobre pagadora do carnê do Baú. E que na segunda-feira o máximo será um comentário na fila do seguro-desemprego, do busão ou no bandex da firma.
Porque, a rigor é isso que são: palhaços de circo.
Se colocamos o orgulho nacional em seus ombros, aí sim o problema será nosso.
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