segunda-feira, 4 de junho de 2018

Saudades…

Eu era aluno do primário, no começo dos 80, quando houve uma campanha de vacinação contra a Febre Amarela na minha escola. Fomos postos em fila e bovinamente nos pusemos a marchar para a picada.

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Ao chegar perto, vi um técnico de enfermagem aplicando a vacina usando algo parecido com uma pistola. Um a um meus colegas iam passando e levando a ferroada, impiedosamente desferida pelo mesmo instrumento.

Na minha vez empaquei. Abaixei a manga da minha camisa branca, vincada pela goma e me recompus. Altivamente disse que não tomaria a vacina, pois a pistola estava servindo para todos e eu havia visto no Fantástico no último domingo que se a agulha fosse a mesma para todos, eu pegaria AIDS.

Formou-se um pequeno pandemônio, pois passei a usar minha única arma argumentativa (a melhor até hoje inventada): o choro, enquanto o profissional ameaçava chamar meu pai, minha mãe, o diretor da escola e nada me comovia.

Um médico, pai de um colega, passava por ali e me tranquilizou dizendo "fique calmo, essa doença só pega em gays". Fiquei olhando para ele, enquanto maquinalmente levantei a manga da camisa para receber a espinhada e fosse o que Deus quisesse.

Dias depois meu pai conversava com amigos na sala de casa e contou minha saga para eles, que se riram de mim, mas de forma carinhosa. Afagaram minha cabeça e disseram que tudo iria ficar bem.

Ato contínuo começaram a falar do flagelo da AIDS, até que um deles, mais gaiato, disse "que saudades da gonorreia e do Figueiredo". E todos caíram na gargalhada, inclusive eu.

Ainda não sabia a força de uma ironia, mas, juntando o fato que papai comemorou a (quase) subida de Tancredo e a consequente ascensão de Sarney, eu julgava que estavam brincando acerca de uma eventual saudade de um ditador, assim como de uma doença venérea.

Tem gente com saudades do preço da gasolina no tempo da Dilma, e que ainda atribui aos paneleiros a greve dos caminhoneiros. Eu já não era um rapazote nos tempos Dílmicos, pelo contrário. Dava para ver que aquele preço baixo era artificial e criava uma bomba relógio, que enfim explodiu.

Na verdade eu não sei se isso é saudade ou birra - posto que se saudade fosse, Dilma estaria explicando em rede nacional sua fórmula milagrosa para o baixo preço da gasolina. Também entendemos que esta atual gestão deixou o preço do diesel flutuar de forma sádica, largando os transportadores sem condições de operação, dado que o troço cada dia custava um valor. No fim, ficam dois registros, de um lado e de outro, de mau uso de uma estatal - ainda que os registros de bom uso sejam minguadíssimos.

É... Por mais que haja birra, ainda não vi estampada com todas as letras a expressão "saudades da Dilma". Da gonorreia ninguém precisa ter saudade, nem da febre amarela, cuja vacina agora é por seringas descartáveis - eu quando garoto acertava bem mais que agora.

Já a turma que tem saudade do Figueiredo parece mesmo estar falando sério...

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