quarta-feira, 28 de março de 2018

Vamos dissipar o clima de guerra civil

Quando se vai para o "tudo ou nada", assume-se o risco do "nada".

Por isso é sempre uma forma tresloucada de agir. Em nossa história não temos tradição de partir para o arrebento. Nossa independência de Portugal foi proclamada por um português.

Nossa república foi proclamada por um monarquista.

O ditador mais sanguinário que manchou nossa história pôs fim à sua na calada da noite.

Abortamos uma investida comunista com uma contra-revolução militar, a qual até hoje chamamos de "revolução", e ainda por cima lembramos o fato na data errada. Esse período ditatorial acabou por meio da Anistia, uma concertação nacional onde politicamente se optou por apascentar os dois lados.

Estes fatos fazem nossa história ser única, bela e complexa.

É preciso serenidade. Sempre. Somos uma democracia. Este é o valor a ser defendido. Por todos.

Que Lula colha o que plantou sendo condenado e preso, dentro dos ditames constitucionais, tendo respeitado seu direito de defesa, mesmo que o processo pareça leniente.

Se eu ofereço barreira para impedir a progressão de uma caravana de cujas posições políticas eu discordo, eu apenas me igualo a quem queimou pneus e me impediu de ir trabalhar. O preceito bíblico de "dar a outra face" não se escora no perdão, mas na resistência. Ensina que a melhor forma de resistir é mantendo a serenidade.

Quem mata uma vereadora e seu motorista é um bandido. Quem atira num ônibus é também um bandido. Mas não seriam menos bandidos se matassem uma vereadora em que eu tivesse votado ou atirasse no ônibus que levasse a comitiva do meu candidato a presidente.

Vivemos um momento único de nossa história, porque estamos perdendo a perspectiva que só a serenidade confere. Já fui pessoalmente perseguido pelos que hoje tomam pedras e ovos. É uma sensação horrível. Não devolver com pedras e ovos é um ato de resistência, não de perdão e muito menos de covardia.

É preciso se dissipar o clima de guerra civil. Senão ela acontece.

sexta-feira, 23 de março de 2018

As semelhanças entre Lula e a Sibila de Cumas

Após dias como ontem, acordamos com a sensação de terra devastada.

Parece que nos levaram um país inteiro. "Terra Devastada", aliás é nome de um poema de T.S. Elliot (sempre é bom recorrer a uma obra-prima após se descrer na humanidade), cuja epígrafe, tirada do Satyricon de Petrônio, trazia:

Com meus próprios olhos vi em Cumas a Sibila, suspensa dentro de uma ampola. E quando as crianças lhe perguntavam: ‘o que queres?’, ela dizia: ‘morrer’.

Sibilas eram sacerdotisas que tinham contato direto com Apolo. Consta que esta, a de Cumas, levou Enéas aos infernos, onde ele obteve revelações sobre seu destino. De Cumas (que fica perto de Nápoles) ele partiu para a região do Lácio e por lá ficou um tempo. Essa passagem está na Ilíada e na Eneida - sempre é bom, repito, recorrer à grandes obras dos homens, mormente após atropelados por obras tão pequenas como a do STF ontem.

Bom, a Sibila de Cumas fez um trato com Apolo para não morrer. Apolo, maroto, concedeu-lhe a eternidade, e lhe concederia ainda a juventude eterna, desde que ela lhe desse a virgindade. A Sibila não desceu a tanto e se recusou ao desfrute. E só nisso se difere de Lula.

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Lula não acabou com o Brasil. Ele só perdeu uma chance, tendo sido o brasileiro que mais dispôs de oportunidades para nos colocar nos eixos - nem Pedro II dispôs de tanto. Mas só quis os rega-bofes do poder e se esbaldou. Foi só um deslumbrado cercado de rapinas. Não será preso. Jamais será. Também não será eleito de novo. Também não voltará ao sítio de Atibaia, nem irá ver o Atlântico do triplex pé-na-areia. Tem mais meia dúzia de processos que lhe morderão o calcanhar pelo resto de vida que tem.

Terá muitas Bagés pelo caminho.

Ontem foi o dia em que uma ministra de nossa Suprema Corte disse que não poderia ficar para a histórica votação porque tinha vôo marcado. Cada momento crucial da história tem o seu "que comam brioches". Os doutos juízes do Supremo são a versão togada de Sérgio Cabral, de Marcelo Odebrecht. São a parte envernizada da mesma escumalha.

Saímos do inferno ontem, como Enéas. Como ele, rumemos para o Lácio. Nossa meta é resistir numa terra inóspita e pedregosa, conquistada após uma guerra sangrenta. Enéas deixou seu filho, Ascânio, no Lácio, como aqui deixaremos os nossos. Dois longínquos descendentes de Ascânio, Rômulo e Remo, fundaram uma cidade naquele lugar que mudaria o mundo.

Nós não veremos este país cumprir seu ideal. Mas seremos parte dele. Nossa resistência será o mais forte dos alicerces.

E Lula? No final do poema de Eliot, o poderoso ainda pergunta "Terei ao menos minhas terras posto em ordem?"

Lula não se fará essa pergunta, não por arrogância mas por se preocupar com a própria sorte. Assim como a Sibila de Cumas, irá permanecer solto – e vivo – testemunhando a indignidade de sua história… talvez até no íntimo desejando ser preso.