Após dias como ontem, acordamos com a sensação de terra devastada.
Parece que nos levaram um país inteiro. "Terra Devastada", aliás é nome de um poema de T.S. Elliot (sempre é bom recorrer a uma obra-prima após se descrer na humanidade), cuja epígrafe, tirada do Satyricon de Petrônio, trazia:
Com meus próprios olhos vi em Cumas a Sibila, suspensa dentro de uma ampola. E quando as crianças lhe perguntavam: ‘o que queres?’, ela dizia: ‘morrer’.
Sibilas eram sacerdotisas que tinham contato direto com Apolo. Consta que esta, a de Cumas, levou Enéas aos infernos, onde ele obteve revelações sobre seu destino. De Cumas (que fica perto de Nápoles) ele partiu para a região do Lácio e por lá ficou um tempo. Essa passagem está na Ilíada e na Eneida - sempre é bom, repito, recorrer à grandes obras dos homens, mormente após atropelados por obras tão pequenas como a do STF ontem.
Bom, a Sibila de Cumas fez um trato com Apolo para não morrer. Apolo, maroto, concedeu-lhe a eternidade, e lhe concederia ainda a juventude eterna, desde que ela lhe desse a virgindade. A Sibila não desceu a tanto e se recusou ao desfrute. E só nisso se difere de Lula.
Lula não acabou com o Brasil. Ele só perdeu uma chance, tendo sido o brasileiro que mais dispôs de oportunidades para nos colocar nos eixos - nem Pedro II dispôs de tanto. Mas só quis os rega-bofes do poder e se esbaldou. Foi só um deslumbrado cercado de rapinas. Não será preso. Jamais será. Também não será eleito de novo. Também não voltará ao sítio de Atibaia, nem irá ver o Atlântico do triplex pé-na-areia. Tem mais meia dúzia de processos que lhe morderão o calcanhar pelo resto de vida que tem.
Terá muitas Bagés pelo caminho.
Ontem foi o dia em que uma ministra de nossa Suprema Corte disse que não poderia ficar para a histórica votação porque tinha vôo marcado. Cada momento crucial da história tem o seu "que comam brioches". Os doutos juízes do Supremo são a versão togada de Sérgio Cabral, de Marcelo Odebrecht. São a parte envernizada da mesma escumalha.
Saímos do inferno ontem, como Enéas. Como ele, rumemos para o Lácio. Nossa meta é resistir numa terra inóspita e pedregosa, conquistada após uma guerra sangrenta. Enéas deixou seu filho, Ascânio, no Lácio, como aqui deixaremos os nossos. Dois longínquos descendentes de Ascânio, Rômulo e Remo, fundaram uma cidade naquele lugar que mudaria o mundo.
Nós não veremos este país cumprir seu ideal. Mas seremos parte dele. Nossa resistência será o mais forte dos alicerces.
E Lula? No final do poema de Eliot, o poderoso ainda pergunta "Terei ao menos minhas terras posto em ordem?"
Lula não se fará essa pergunta, não por arrogância mas por se preocupar com a própria sorte. Assim como a Sibila de Cumas, irá permanecer solto – e vivo – testemunhando a indignidade de sua história… talvez até no íntimo desejando ser preso.
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